05/2024

A geografia está de volta*

Publicado por: Clara Barufi
Categorias: Artigo de opinião | Materiais de terceiros

Jorge Arbache**

Milhares de anos atrás, terras férteis, água e outros recursos naturais determinaram a mais profunda transformação da humanidade ao oferecerem condições para assentamentos e para o desenvolvimento da agricultura. Muita água passaria por debaixo da ponte e, há cerca de 300 anos, iniciaria outra profunda transformação, esta, ancorada no conhecimento, tecnologia, inovação, organização da produção e instituições. De maneira simplificada, fomos da Revolução Neolítica à Revolução Industrial e, mais recentemente, à Revolução Digital. Com isto, a influência econômica da geografia iria, pouco a pouco, ceder espaço para ideias, tecnologias e eficiência.

Este resumidíssimo arcabouço nos ajuda a entender por que países com relativamente poucos recursos naturais puderam se enriquecer, enquanto outros, ricos naqueles recursos, seguiriam pobres. O elevado desenvolvimento e a fluidez dos mercados globais de commodities têm garantido uma ordem que, ao fim e ao cabo, permite que países com recursos naturais escassos possam, sem maiores inconvenientes, aceder aos alimentos, energias e minerais de que necessitam.

Mas esta ordem está chegando ao fim. Séculos de extrativismo predatório têm alterado a geografia ao destruir florestas, dilapidar recursos hídricos, contaminar solos, degradar terras, poluir o ar e a água e emitir gases de efeito estufa. Tudo isto está levando ao aumento da incidência de eventos climáticos cada vez mais extremos e trazendo perturbações e imprevisibilidade aos mercados. O aumento da volatilidade e dos riscos subjacentes àquelas alterações já estão afetando os valores dos ativos, a viabilidade econômica e financeira de projetos e afetando bancos e mercados de seguros. Pense nas enchentes do Rio Grande do Sul.

De outro lado, testemunhamos um acelerado processo de desglobalização causada por fatores políticos, com movimentos autárquicos de discriminação, protecionismo, controle de capitais e de investimentos e espetaculares pacotes de subsídios e intervenções que adicionam aos desafios do funcionamento dos mercados. Essa busca de autossuficiência econômica parece partir do pressuposto de que os mercados de recursos naturais seguirão funcionando normalmente, como se fossem uma arena apartada dos demais mercados, o que pode ser uma avaliação equivocada.

Ao que tudo indica, o aquecimento do planeta seguirá aumentando e, a esta altura, é difícil acreditar que seremos capazes de contê-lo dentro dos limites de segurança. E, pior, a euforia de anos recentes com compromissos e metas ambientais está perdendo fôlego. De fato, os interesses comerciais, a procrastinação, o ainda crescente consumo de petróleo e a revogação de compromissos de empresas com princípios ESG sinalizam que estamos distantes do Net-Zero.

É nesse contexto que a geografia deverá voltar ao centro da agenda econômica, o que terá implicações sociais, políticas e geopolíticas profundas. Afinal, não se produz água, energias renováveis, alimentos e nem minerais em laboratório e tudo aquilo que depende de recursos naturais deverá experimentar aumento significativo de preços relativos.

Com condições geográficas únicas, o Brasil tem enormes vantagens comparativas e competitivas associadas a recursos naturais que muito podem contribuir para as agendas globais. O país tem vastas áreas para expansão da produção agrícola e goza das maiores reservas de recursos hídricos, o que o habilita a aumentar a produção de alimentos para a mesa do mundo. Além disto, o país tem matriz elétrica 93% renovável, o que o habilita ao powershoring, ou a receber plantas e cadeias industriais intensivas em energia e que necessitam descarbonizar as suas operações. Esta estratégia, de um lado, acelera os tempos da descarbonização em nível global e, de outro, reduz os seus custos, ao tempo em que permite aumentar rapidamente a oferta de bens manufaturados verdes.

O país também dispõe de grandes reservas de muitos dos mais importantes minerais necessários para a transição climática, o que também o habilita a desenvolver cadeias de valor industriais para a sustentabilidade. As ricas florestas e biomas, a inigualável biodiversidade e a bioeconomia também levam a que o Brasil possa contribuir de maneira fundamental para a descarbonização e o equilíbrio do clima e para o fornecimento de soluções biológicas sofisticadas para problemas novos e antigos. E o Brasil também lidera a agenda de biocombustíveis. Tudo isto sugere que a luta contra a descarbonização passará, necessariamente, pelo Brasil.

Mas, para que o Brasil possa servir ao planeta, será necessário que os mercados e o sistema de preços funcionem. Os imensos subsídios e as crescentes barreiras e medidas de proteção, como o CBAM, em nada contribuem num contexto em que, mais do que nunca, será necessário o uso mais eficiente e racional dos recursos naturais de forma a reduzir os custos da transição e os impactos da mudança do clima.

Neste sentido, será preciso eliminar perturbações artificiais à geografia e às vantagens comparativas e competitivas e rever obstáculos que distorcem preços e a alocação dos recursos em favor de projetos de energia mais eficientes e benéficos para todos, e para projetos industriais intensivos em água e energia. Esta agenda oferece gigantescas oportunidades de negócios que combinam eficiência, rentabilidade, sustentabilidade, resiliência e ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Organização das Nações Unidas).

O Brasil tem razões de sobra para dobrar a aposta em políticas e investimentos da sustentabilidade, converter-se em referência da transição verde e justa e ser importante provedor de soluções de interesse de todos.

* Este artigo foi publicado originalmente na coluna A Transição Explicada, da EPBR.

** Jorge Arbache é professor de economia da Universidade de Brasília e consultor econômico.

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