01/2024

Descarbonização industrial: Brasil na vanguarda ou à margem do futuro?*

Publicado por: emais
Categorias: Artigo de opinião | Clipping

Rosana Santos e Stefania Relva**

As atividades industriais perderam seu protagonismo na economia brasileira. De acordo com o Banco Mundial, em 1984 o setor industrial representava gloriosos 46% do PIB. Porém, até 2022, essa fatia encolheu para cerca de 20%. A indústria nacional se desidratou – está mais murcha que alface na geladeira de um solteirão – enquanto outros segmentos avançaram, como a agricultura.

O fenômeno também foi verificado na nossa balança comercial: em 1993, os manufaturados dominavam quase 60% das exportações; já em 2022, representam modestos 25%. Além disso, a perda de relevância reduziu a quantidade de trabalhadores do segmento, agora limitada a cerca de 20% da força de trabalho do país. Em termos de porcentagem, essa participação pode até parecer razoável, mas, considerando a absoluta grandiosidade do Brasil, é como ter um pedaço de pizza na mesa e chamar de banquete.

Diante desse declínio no PIB industrial e do aumento das disparidades sociais, o Brasil decidiu explorar novos horizontes. O Plano Plurianual 2024-2027 do Governo Federal (PPA) está focando suas fichas na neoindustrialização como o antídoto para a ressaca industrial, mirando na criação de empregos, equidade social e sustentabilidade ambiental. Ao mesmo tempo, o plano busca deixar o país mais afiado para competir globalmente, implementando reformas comerciais. A agenda vai além do trabalho de alguns ministérios: o presidente Lula e o vice Geraldo Alckmin têm insistido diretamente na questão da neoindustrialização.

No entanto, é crucial destacar que, para além da neoindustrialização, há a necessidade de alavancar uma neoindustrialização “verde” ou “de baixo carbono”, ou “de baixa emissões”. O fato é que, independentemente da nomenclatura estilizada, é preciso modernizar o parque industrial garantindo ao mercado produtos que possam ser certificados como de baixa pegada de carbono, agregando valor na produção nacional, promovendo empregos verdes e colocando o Brasil em lugar de destaque no mundo.

A Europa tem o Mecanismo de Controle de Fronteira de Carbono (CBAM, na sigla em inglês) e os Estados Unidos, a Lei de Redução da Inflação (IRA). Com esses mecanismos, ambos estão dando sinais claros de que produtos cheios de carbono ou sem certificação perderão espaço no mercado. Se não tomarmos medidas para nos adequarmos rapidamente a essa agenda, podemos diminuir ainda mais nossa participação industrial nos mercados internacionais, em meio a uma concorrência considerável de produtos descarbonizados vindo de todos os cantos do planeta.

Nessa dança da descarbonização global da economia, algumas cadeias de suprimento merecem destaque. Peguemos a produção de aço a partir de minério de ferro. Nesse processo, a redução do minério corresponde a mais de 50% das emissões totais, uma vez que geralmente acontece com carvão mineral. O Brasil, como o segundo maior produtor e exportador de minério de ferro no mundo, poderia fazer a redução localmente, utilizando biometano, hidrogênio ou uma parcela maior de carvão vegetal de florestas plantadas. Dessa forma, seria possível diminuir as emissões dessa etapa do processo praticamente a zero. Além disso, o país teria a oportunidade não apenas de produzir aço com uma pegada de carbono significativamente menor, mas também de exportar o produto intermediário, contribuindo para a descarbonização global desse setor e agregando valor a suas exportações.

Outro exemplo é a produção de painéis fotovoltaicos. Ao invés de exportar o silício metalúrgico utilizado na produção desses painéis, poderíamos fabricá-los localmente, aproveitando nossa matriz energética mais limpa em comparação com a da China, principal destino das nossas exportações de silício metalúrgico. Essa abordagem reduziria as emissões de produção dos painéis e evitaria as associadas ao transporte, além de promover resultados econômicos mais favoráveis ao Brasil.

O Brasil tem tudo para brilhar nesse palco: abundância de energia renovável, vastos recursos hídricos, amplo território, reservas significativas de minerais críticos, indústrias de grande porte e uma comunidade acadêmica brilhante. Também contamos com boas relações diplomáticas e comerciais com o mundo todo, uma boa localização geográfica e uma extensa área portuária. Além de tudo isso, com a liderança do G20 neste ano e como sede da COP-30 em 2025, o país tem a faca e o queijo na mão para se tornar um líder no cenário internacional no tema descarbonização da indústria. Mas se temos tudo isso, o que está faltando para esse cenário se tornar realidade?

Primeiro, é preciso ter cuidado com sinais trocados. Ingressar na OPEP em meio à COP-28 e aprovar mais subsídios para a geração elétrica a carvão não são exatamente os passos de uma potência verde. Além disso, no cenário internacional, o país deve, cada vez mais, mostrar ao que veio, divulgando seus potenciais e participando ativamente nas negociações e definições de padrões de certificação de produtos e insumos de baixo carbono. Precisamos mostrar para o mundo a importância e o potencial sustentável da biomassa e biogás, e como devemos considerar esses recursos e um grid com imensa participação de energia hídrica na produção e certificação de produtos com baixa pegada de carbono.

Segundo, temos algumas lições de casa a fazer, como estabelecer metas específicas de emissões para cada setor da economia, incorporando-as às novas Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs). Precisamos também identificar e incentivar potenciais hubs industriais para o uso compartilhado de recursos renováveis como a biomassa, o hidrogênio e o biometano, garantindo o uso desses recursos na produção nacional, de modo a agregar valor aos bens, gerar mais renda e mais emprego. E, mesmo com um setor elétrico já bastante renovável, não podemos negligenciar a eletricidade limpa. É preciso assegurar a manutenção de uma elevada participação de fontes renováveis no setor elétrico, mantendo ao mesmo tempo sua operação segura.

Outro ponto importante é acoplar a descarbonização industrial ao planejamento elétrico, considerando um aumento de eletrificação na indústria e reconhecendo o papel que esse setor pode ter no gerenciamento da demanda de eletricidade. Afinal, esse gerenciamento é de extrema importância para evitar o despacho de termoelétricas a combustíveis fósseis, reduzindo o custo da energia e as emissões.

Por último, é essencial que o restante do mundo, principalmente os países desenvolvidos, assumam a sua parcela de responsabilidade e estejam dispostos a abrir a carteira e pagar um pouco mais por esses produtos descarbonizados. Afinal, a modernização do parque industrial, o desenvolvimento de uma cadeia de suprimentos para novas fontes energéticas e a reorganização de parte das cadeias globais de abastecimento exigem um investimento significativo.

O Brasil pode ser o centro de uma narrativa crucial para a descarbonização industrial global. Ao apostar na neoindustrialização verde, posiciona-se para liderar uma revolução na produção com baixa pegada de carbono. Mas nos resta ponderar: em um mundo que exige urgência climática, temos tempo suficiente para arrumar a casa e assumir essa liderança? Se agirmos rápido e de maneira eficaz, ainda podemos ocupar esse lugar. Porém, o tempo urge!

* Artigo publicado no dia 15/01/24 no portal The Conversation Brasil.

** Rosana Santos é diretora-executiva e Stefania Relva é consultora sênior do Instituto E+ Transição Energética.

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